Arquitetura da Transmutação

Trabalho de Conclusão de Curso - FAU UFJF agosto 2016
Indicado para publicação (Opera Prima)
Rodrigo Waihiwe. Orientador: Fabricio Fontenelle 

1. PESQUISA

 

O objetivo do trabalho foi a criação de um modelo arquitetônico e programático de intuito universalizante que sirva de base para sustentar um novo modelo de assistência em saúde pautado pelas medicinas previstas no Programa de Incentivo às Práticas Integrativas e Complementares do Governo Federal [Brasil, 2006]. Programa este que contempla práticas como Homeopatia, Medicina Tradicional Chinesa, Antroposofia, Fitoterapia, etc.

A partir da Carta de Alma Alta em 1979, a Organização Mundial da Saúde também passou a recomendar aos países integrantes a inserção da Medicina Tradicional (MT/MCA) aos sistemas oficias de saúde com o foco na Atenção Primária de Saúde (BRASIL, 2015). No Brasil a prática das diversas medicinas holísticas no sistema público de saúde iniciou-se pontualmente em âmbitos municipais e estaduais por iniciativa dos próprios médicos e se desenvolveu de maneira mais ou menos autônoma, o que caracterizava uma prática não legitimada e não subsidiada de insumos e ações públicas, portanto isso caracterizava um quadro desigual de disponibilidade desses serviços regionalmente e sem regularização de normas e incentivo técnico financeiro. O princípio holístico e o atendimento humanizado das Práticas Integrativas e Complementares e sua aplicação na promoção, proteção e recuperação da saúde atendem ao princípio de integralidade do indivíduo e contribui para o fortalecimento dos princípios fundamentais do SUS e, portanto também se caracterizam como um avanço no processo de desenvolvimento e implantação do SUS. O intuito da política também é a de democratizar o acesso às diversas modalidades de medicina, atendendo ao princípio de equidade e universalidade, pois os usuários poderão escolher o tipo de tratamento que querem recorrer no sistema público de saúde, e este deve garantir a segurança a eficácia e a qualidade dos serviços disponibilizados.

2. CONCEITO

 

Seguindo a ideia da intersetorialidade prevista pelos conceitos de Promoção de saúde, procurei identificar políticas públicas adjacentes possíveis de serem integradas às mediocinas holísticas, com o objetivo de dar autonomia em seu funcionamento, identificando também os agentes envolvidos e como dinamizar eles de maneira construtiva a integrar e tornar mais coletivo, participativo, e conectado à realidade vivida da comunidade no local bem como tornar eficiente o funcionamento do equipamento em termos de sua reprodução material e simbólica. Dessa maneira para subsidiar a integração de políticas públicas necessárias para o desenvolvimento de um Centro de Referência em Medicinas Holísticas, procurei desenvolver o contato entre três tipos de redes dentro do complexo, de maneira que a arquitetura afirma seu caráter estruturante entre estes três agentes: o sistema de políticas públicas (planejadores, hierárquico e centralizado), o sistema das unidades territoriais (funcionários públicos, estudantes; horizontalizado e distribuído) e a população (com ênfase na população de risco; rizomático e dinâmico). Essa definição é válida para o planejamento do empreendimento público (através de editais centrais), prática, ensino e pesquisa na unidade territorial (através do equipamento arquitetônico urbano), e a multiplicação através da população em sua rede rizomática. Isso implica na utilização de diretrizes e editais centralizados que podem servir como base de financiamento e suporte técnico (Governo Federal), as unidades territoriais que através de uma arquitetura apropriada fornecem a dinâmica funcional Intersetorial adequada às suas finalidades (estado e município) e a rede da população que oferece tanto os saberes vernaculares, como são agentes de diagnóstico, decisão, multiplicação e profissionalização (município e microrregião).

3. PROGRAMA

Para tanto o programa proposto busca interagir um Centro de Referência em Medicinas Holísticas, uma UBS tipo I e uma Farmácia de Manipulação popular. com políticas de Serviço Social, tal qual um CRAS, um Restaurante Popular (ligado ao conceito de comida orgânica e com as sistemáticas do PNPIC, como a MTC) e Cozinhas Comunitárias. E para propor um modelo novo de diagnóstico, planejamento, construção e gestão dos espaços construídos, vim com a proposta de um Laboratório da Cidade, que seria uma interface universalizada em rede, e regionalizada no local que possibilitaria a integração necessária do planejamento e construção com o local, as pessoas e a cultura, mas também permite que a construção (reprodução material) se desamarre dos vínculos viciosos com a indústria da construção civil através de metodologias digitais e pesquisas na área de metodologias construtivas que crie meios construtivos que aliem tanto a inovação quanto a sabedoria popular e que possam ser replicados e adaptados dentro de uma base normativa de interface transparente e aberta ao público. Essa integração de prática e pesquisa na construção civil (técnicas de projeto, técnicas de análise, técnicas de fabrico e construção) permite a criação de novas bases de exploração dos meios de reprodução material, dando autonomia, sustentabilidade econômica e ambiental na criação e gestão do espaço, devendo ter também um papel educativo de reprodução do conhecimento para uma sociedade urbana como a nossa que se reproduz majoritariamente através da autoconstrução. Portanto aqui se faz necessária uma primeira proposição acerca de um novo programa metodológico mais eficiente e participativo que o atual programa modular de replicação construtiva do Governo Federal, e que se configure em uma nova Política Pública saudável na área de Planejamento Urbano e Arquitetura, integrativa, comunicativa e interdisciplinar para uma produção do espaço adequada aos problemas e potencialidades peculiares de cada lugar, utilizando a base de princípios e metodologias universais.

Interagir os agentes envolvidos na construção e manutenção do espaço, os usuários, construtores, técnicos da construção, engenheiros, arquitetos urbanistas, designers e estudantes destas áreas e afins. A ideia é integrar a pesquisa e a prática de técnicas construtivas tradicionais, vernaculares com técnicas inovadoras possíveis através tecnologias de CAD, CAE e CAM. As técnicas tradicionais e vernaculares são o princípio tanto de compreender o saber-fazer da população e do local com o qual se pretende interagir para gerar arquitetura ou urbanismo, mas também se relaciona com medidas de sustentabilidade, eficiência energética e economia de recursos, bem como aprendizado, pesquisa e possíveis normatizações acerca de técnicas alternativas. Já a sua interface com o Computer Aided Design (CAD) e Computer Aided Engineering pretende através programas algorítmicos e paramétricos (Grasshopper, por exemplo) a geração de metodologias automatizadas através de definições paramétricas de geração da forma do objeto aliada às técnicas construtivas eficientes (inovadoras ou tradicionais). Tais técnicas de programação podem e devem gerar definições algorítmicas para análise ambiental, eficiência energética, e modelos digitais (BIM) do projeto que possibilitem a automação, a eficiência e a administração da construção, da manutenção e da reforma do objeto arquitetônico-urbanístico. Já o Computer Aided Manufacturing é a utilização dessas definições digitais para fabrico em máquinas automatizadas e digitais tais como fresadoras CNC, impressoras 3D, braços robóticos e outras tecnologias.

4. LUGAR

A escolha do terreno se pautou pela busca de uma patologia urbana na cidade a qual pudesse se tornar em potencialidade, no caso de Juiz de Fora a região entre o Rio Paraibuna e a Ferrovia configura visivelmente o grande segregador qualitativo urbano da cidade, e a região que fica entre eles passou a configurar um reduto de pessoas marginalizadas, sendo nomeado pejorativamente de “crackolândia”. Apesar do seu atual estigma a região comporta atividades de grande importância para a vida da cidade como a feira, atividades de reciclagem e trocas, bem como uma vida comunitária das população que ali habita. Atualmente o Rio Paraibuna está desqualificado para utilização de lazer e a ferrovia é um dos grandes impecilhos para o tráfego autoviário da cidade, a rua Benjamin Constant é uma importante rua e possui um grande lote abandonado nesse trecho entre limites. Portanto a primeira proposta macro, é a implantação de um VLT no eixo da ferrovia e a implementação real do projeto Eixo Paraibuna previsto pelo plano diretor urbano. Segundo as lei municipal de 6910 de 1986 (JUIZ DE FORA, 1997) esta área se situa na Unidade Territorial 1 (UT 1) e na Zona Comercial 5 (ZC 5), pelo Centro de Referência em Medicinas Holísticas ser um projeto Institucional o seu modelo de ocupação é de até M3A.

 

 

MODELO de ocupação: M3A. Área: 11.243 m²

- Coeficiente de aproveitamento máximo: 2,2

- Afastamentos: não precisa de afastamento frontal até o segundo

Área construída possível: 24.734,6 metros quadrados

5. IMPLANTAÇÃO

 

Para iniciar o processo de implantação parti de algumas análises ambientais providas pelo add-on do Grasshopper chamado Ladybug, que lê e interpreta arquivos de extensão EPW de dados climáticos em algorítimos generativos que você monta para determinar cálculos, gráficos e simulações de conforto térmico. Foi criado um algorítimo para gerar gráficos do conforto térmico anual, e encontrar os períodos de maior desconforto térmico, também utilizei um componente que gera gráfico psicométrico, onde podemos visualizar a distribuição das horas anuais em relação ao conforto térmico, e também quais tecnologias passivas poderiam ser utilizadas para adequar o microclima do projeto ao local, no caso desse projeto obtive duas tecnologias que resolveriam o desconforto térmico, a primeira é a de aquecimento passivo, e a outra de técnicas de ventilação cruzada (que vão ser descritas posteriormente). Além disso utilizei gráficos de direção do vento, relacionado à velocidade e à temperatura, para ver quais direções deveriam ser priorizadas para conseguir gerar ventilação cruzada, e ganho de calor. Um algorítimo foi feito para visualizar a posição solar nos períodos de maior desconforto térmico para determinar quais direções de raio solar devem ser evitadas na implantação.

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6. SISTEMAS CONSTRUTIVOS

 

Escolhi utilizar uma casca funicular que unificasse o projeto esteticamente e funcionalmente, inspirado pela técnica de cerâmica armada de Eladio Dieste, e pela prática contemporânea com instrumentos digitais do grupo de pesquisas Block Research Group.

As catenárias são formulas matemáticas que descrevem a forma que um cabo adquire pelo esforço da gravidade, utilizando isso em materiais compressivos invertido é possível gerar estruturas ativas de distribuição de tensões, essa fórmula foi vastamente utilizado em diversas épocas históricas, e modernamente foi executada com primor por Gaudi com suas maquetes de pesos. Com as novas tecnologias podemos realizar o mesmo tipo de simulação executado por Gaudi através da interface virtual com a vantagem de conseguir processar muito mais dados em menos tempo, e portanto atingir complexidade formal com mais facilidade do que com protótipos físicos em escala. Além da complexidade virtual, o algoritimo também pode realizar etapas de análise e de fabricação automatizada através de CNCs.

A casca foi projetada com auxílio da simulação física do Kangaroo na interface Grasshopper e Rhinoceros, aplicando lei de Hooke nas linhas da mesh, e força vertical nos vértices, o sistema construtivo é uma mistura da técnica de abóbada catalã com cerâmica armada nos pontos de maior esforço e tensão.

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